Visitar o Gerês é respirar ar puro, mergulhar em águas cristalinas e geladas, ver ou pressentir um animal selvagem, quiçá ameaçado, caminhar por trilhos de beleza tão única que chega a emocionar, ou ainda poder descobrir um pouco mais sobre as nossas origens. O Gerês é um anfiteatro tão especial que as cerca de 226 espécies de vertebrados e 1100 de flora explicam a classificação da UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera. Posto isto, não tivemos dúvidas quando no passado mês de Agosto decidimos visitar e percorrer o “PR9 – Trilho dos Poços Verdes”. As palavras que utilizarei e as imagens que partilharei para descrever a nossa experiência nunca farão jus ao que vivemos nesta caminhada de incrível beleza e em plena harmonia com a natureza, naquela que é “a única área nacional protegida que possui a categoria de Parque Nacional, o nível mais elevado de classificação das áreas protegidas” (CMMelgaço). Curioso/a? Então, venha daí!

No coração da Serra do Gerês, tivemos conhecimento da existência de vários poços de água cristalina criados pelas rochas acumuladas no leito do rio Cabril e localizados a poucos quilómetros da pitoresca aldeia de Xertelo. Chamam-lhes “Poços Verdes”, também bastante conhecidos por “Sete Lagoas”, e estão abrilhantados por outras tantas pequenas cascatas que fazem a delícia de todos os amantes da natureza. O trilho que até eles conduz foi talvez o trilho mais bonito e, ao mesmo tempo, o mais difícil que eu e o Magno fizemos até aos dias de hoje.
Para os menos aventureiros, existem essencialmente duas formas de poder chegar lá e uma terceira, para os mais aventureiros como nós:
- Ainda que não aconselhável, de jipe “todo-terreno” pelo estradão em terra batida, que demora sensivelmente 10 minutos. Ideal para crianças pequenas ou pessoas com mobilidade reduzida;
- A pé, num trilho de 5 quilómetros a sair da aldeia de Xertelo e a regressar pelo mesmo caminho. É um percurso com poucos declives, fácil e pode demorar cerca de 2 horas para cada lado. É a primeira parte do “PR9-Trilho dos Poços Verdes” e consequentemente a mais fácil (começa no interior da aldeia de Xertelo);
- O “PR9 – Trilho dos Poços Verdes”, a terceira forma de o fazer é dedicada aos amantes de trilhos e caminhadas.
Deixo aqui o link de um dos sites que consultámos para quem quiser obter mais informação.


“PR9 – Trilho dos Poços Verdes”
O “PR9 – Trilho dos Poços Verdes” é um percurso circular de 10,5 quilómetros, com duração total de 5 horas, cujo grau de dificuldade é médio/alto e os pontos de partida e chegada são na aldeia de Xertelo, concelho de Montalegre.

Pernoitámos no Hotel Rural da Misarela, localizado na aldeia de Sidros, mesmo às portas do Parque Nacional, o que permitiu acordar tranquilamente para concluir o nosso almoço volante, organizar as poucas coisas que levámos e tomar o pequeno almoço tranquilamente. Em 10 minutos estávamos em Xertelo e prontos para iniciar a nossa caminhada.


Chegámos a Xertelo por volta das 8h30 e encontrámos uma aldeia estranhamente calma. Em poucos minutos percebemos que a calmaria seria por muito pouco tempo.
Irrompemos aldeia a dentro e rápidamente começámos a encontrar as primeiras indicações do percurso e pouco depois as primeiras paisagens. Difícil de descrever tamanha beleza, que só viria a deixar-nos ao final do dia!
Para orientação: Logo no início do percurso encontrámos uma antiga levada que nos acompanha durante alguns metros e logo de seguida no chão umas caixas em betão que nos acompanham durante um ou dois quilómetros.


Parávamos inúmeras vezes para infrutiferamente tentar registar fotográficamente aquilo que os nossos olhos viam. No silêncio apenas interrompido pelo vento e o chilrear dos pássaros, tentávamos absorver a envolvência da natureza: talvez prestes a encontrar (ou serem eles a encontrarem-nos) um corço, um cavalo garrano, ou quiça uma qualquer outra das 26 espécies ameaçadas. Que sensação incrível!


Montanha atrás de montanha e uma hora e quarenta minutos depois, chegámos quase sem darmos por isso às lagoas. Foram 4,7 quilómetros até aqui! Do topo, ficámos uns quantos minutos a contemplar a paisagem. Conseguimos avistar os sete poços que eram efetivamente verdes, escrupulosamente esculpidos pelas rochas que se tinham acumulado no vale entre as montanhas. Estava muito calor e decidimos por fim descer.
CUIDADO: a rocha ou os pés/calçado húmidos são muitíssimo perigosos. As quedas costumam ser bastante aparatosas e graves, algumas delas podendo mesmo resultar em morte. O calçado aquático (os “aquashoes“) são enganadores – é preferível andar descalço. Na ânsia de dar o melhor mergulho ou obter a melhor fotografia, vimos alguns, ainda que pequenos, acidentes. Circule com calma, apoiando firmemente os pés na rocha.

Aos sete poços verdes foram-lhes atribuídas por ordem decrescente de declive as seguintes designações: 1.Nadar, 2.Relaxar, 3.Meditar, 4.Desfrutar, 5.Usufruir, 6.Cuidar e 7.Revigorar. Todos eles interligados não só pela conectividade das palavras mas também pelas pequenas cascatas de água fresca e cristalina, que no Inverno se tornam grandes quedas de água.


Mergulhámos nas águas cristalinas de alguns poços que se encontravam mais perto e apanhámos sol deitados na própria rocha. Que sensação tão boa! E depois de uns quantos “jogos” entre água e sol, sol e água, sentámo-nos para devorar o nosso piquenique ao som das pequenas quedas da água das cascatas e do chilrear das aves que por lá andavam. Não, não há muita sombra e por isso o chapéu de sol e o protetor solar são indispensáveis! Já nem falo da água – a hidratação é fundamental e confesso que, quando chegámos ao fim concluímos que os 2 litros de água que levámos foram muito poucos para o que necessitámos.


Depois do almoço decidimos então continuar o trilho, não sabendo que estávamos prestes a iniciar a parte mais difícil do percurso. Acima da lagoa “1.Nadar”, encontrámos as marcas do trilho, subimos a abrupta encosta até ao topo da montanha e aí tivemos necessidade de parar para recuperar a respiração. E ainda bem, pois mais uma vez voltámos a encontrar paisagens de cortar a respiração que chegaram a emocionar!
ALERTA: “A travessia para esta margem, bem como a continuação do trilho não deve ser realizada no Inverno nem em épocas de muita chuva. Pode haver risco de queda e afogamento, devido ao piso escorregadio e à subida do caudal do rio”.



Percorremos cerca de 3 quilómetros sem ver alguém. Apenas nós! Pelo caminho íamos refrescando o corpo e a alma nos pequenos lagos que íamos encontrando no caminho. Devagar, caminhávamos mesmo muito devagar, não só por causa do calor que se fazia sentir mas também pelo terreno íngreme e rochoso. Quando escrevo íngreme é mesmo acentuado que, em caso de queda, a paragem é lá em baixo no rio Cabril. Arrisco a dizer talvez uns 300 metros em queda quase livre. O declive nesta parte do percurso é por isso bastante mais acentuado e desgastante do que o que encontrámos na primeira parte do percurso.
Passámos pela “Silha dos Ursos“, um pequeno muro de pedras, normalmente de forma circular. No interior mantinham-se os animais para ficarem fora do alcance dos ursos. Segundo consta, este é um tipo de construção utilizado desde a Idade Média, existindo inúmeros exemplares dispersos pela Serra do Gerês.
Ao fim de 3 quilómetros, começámos a descer a encosta da montanha e, ao longe, começávamos a ouvir os chocalhos das cabras. Estávamos prestes a cruzar de novo o rio Cabril. Encontrámos um lago de água verde e cristalina e ao longe os chocalhos. Que lugar mágico e emociante! Ficámos ali bastante tempo a desfrutar respeitosamente a beleza que a natureza nos estava a proporcionar.


E eis que, num instante e sem darmos por isso de tão absorvidos, o som dos chocalhos se intensifica. Eram as cabras que se aproximavam e com elas, ainda que bastante longe, os gritos e os assobios dos pastores. Eram 2 pastores que no topo da montanha chamavam o rebanho e foram também as primeiras pessoas que vimos após 3 quilómetros de caminhada.
Trinta minutos depois, retomámos a caminhada. Começámos a subir de novo outra encosta. Devagar, muito devagar! Uns 100 metros depois encontrámos um pequeno miradouro. Avistávamos o “Poio das Cabras“, um local especificamente escolhido pelo pastor para alocar as cabras bravias para não ficarem expostas ao Lobo Ibérico. Aqui o lobo não arriscava trepar as penedias graníticas mais íngremes. É talvez a mais notável marca de sobrevivência nesta serrania do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Estes míticos locais são ainda hoje possíveis de avistar e estão marcados pela visível corrosão do granito causada pela urina ácida das cabras, vistosos corrimentos que tornavam a rocha branca ou rosada.

Continuámos a caminhada, completamente desgastados e já sem água. Continuávamos a parar tantas vezes quantas fossem necessárias. Passámos por locais onde claramente percebíamos que o percurso parecia inutilizado e 3 quilómetros depois chegávamos à aldeia de Xertelo. No total percorremos cerca de 11 quilómetros, em 4 horas e meia sem contabilizar as paragens.
Já em Xertelo, bebemos 1 litro de água, descalçámos as botas e sentámo-nos a comer calmamente um gelado no “Bar Sete Lagoas“. Só depois regressámos para terminar o dia tranquilamente na piscina do hotel convictos de que este tinha sido o percurso mais impressionante, quer em beleza quer em dificuldade, que tínhamos feito até aos dias de hoje.


Não considero que seja necessária preparação física específica, até porque eu claramente não a tenho, nem me preparei para tal. Considero apenas que é necessária resiliência e espírito de sacrifício. A verdade é que estamos tão absorvidos pela beleza e pela curiosidade que está ao contornar a montanha, que nem damos pelo tempo passar e o cansaço acumulado nas pernas. Ah, o lixo por favor leve-o consigo: esta “casa” é de todos nós e de muitos animais que nela habitam. É nossa obrigação preservá-la para que as próximas gerações possam também desfrutar orgulhosamente desta beleza. Boas caminhadas!
Deixo em vídeo um resumo da nossa caminhada – aqui.
O acesso de jeep não é apenas desaconselhado. É interdito.
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Na altura sim, era permitido, talvez com restrições mas a verdade é que chegámos a ver ao longe um JEEP e ouvimos ainda que ao longe, uns quantos outros. E sim, na altura sentimo-nos incomodados com o facto. Se agora está interdito, impecável, pois é de facto um “santuário” digníssimo de ser preservado.
Gratos por ter lido o artigo, esperando que tenha gostado do nosso testemunho.
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