“Erguendo-se como um gigante sobre a vila de Arouca” e esticando-se até Vale de Cambra e São Pedro do Sul, a Serra da Freita surge encantada de magia natural. E que linda que ela está nesta altura do ano! As cores amarela, branca e violeta sobressaem das pastagens e, ao longe, pequenas manchas castanhas, as vacas arouquesas, que se movimentam nas silhuetas da montanha para procurar a erva mais fresca. Conseguimos ouvir o coração da serra, pelo chilrear dos pássaros ou o coaxar das rãs, o som do saltitar da água que corria nas curvas das pequenas ribeiras ou o som do vento que contornava a montanha. Este foi o cenário que encontrámos a meados do mês de Maio, quando decidimos explorar um pouco mais o interior desta serra, fora das estradas principais e da agitação habitual.

Conhecíamos a serra, mas sabíamos que havia muito mais para explorar. Numa noite de sexta feira, fizemos uma pequena pesquisa para saber exatamente o que precisávamos para que no domingo pudessemos partir à aventura. Descobrimos o site “Arouca Geopark” (aqui) que nos forneceu praticamente toda a informação que considerámos importante. Queríamos apenas fazer uma caminhada, mas descobrimos que existem muito, mas mesmo muito mais coisas que se podem fazer: experiências gastronómicas, visitas guiadas interpretativas, passeios de bicicleta com possibilidade de aluguer, prática de desportos de aventura, as intermináveis zonas de recreio e lazer para os piqueniques e os mergulhos, etc. Tudo está maravilhosamente organizado e disponível no site que indiquei.

Relativamente aos percursos pedestres existem atualmente cerca de 14 Pequenas Rotas (“PR”), e apenas uma Grande Rota (“GR”). As PR podem ir de 3 km a 19 km e a GR é de cerca de 90 km. Encontrará muita informação no site (aqui), desde os pontos de partida e chegada, a distância e duração do percurso, o grau de dificuldade, a altitude máxima e minima e alguns pontos de interesse.
A pergunta que muitas pessoas já nos colocaram foi: “como é que vocês se orientaram?” Os percursos estão marcados com siglas universais, classificadas segundo as normas da Federação Campismo e Montanhismo de Portugal, conforme fotografias abaixo.



Estas indicações estão colocadas ao longo de todo o percurso e nos dois sentidos. Sim, existe sempre a possibilidade de, por distração, nos enganarmos – aconteceu connosco! Nesse caso, deve voltar para trás até encontrar o último registo de “caminho certo”. Se a situação se agravar, nada de entrar em pânico – não muito longe encontrará alguma estrada alcatroada onde com mais probabilidade encontrará alguém. Caso contrário peça ajuda, às autoridades competentes (a linha de emergência SOS).



Entre tantas hipóteses, escolhemos o “PR15 – Viagem à pré-história”, um dos pequenos percursos pedestres mais longos, com cerca de 17 km. Sim, a começar que seja em grande! É um percurso circular que começa e termina junto ao parque de campismo, bem perto da aldeia de Merujal.
O almoço volante foi preparado no dia anterior. De manhã, foi só colocar tudo na mochila para que às oito horas pudéssemos sair de casa devidamente equipados. Às oito horas e quarenta minutos começámos a caminhada que demorou sensivelmente seis horas.
O início é normalmente por estrada alcatroada e, ainda que ligeiramente inclinado, é um percurso relativamente tranquilo e fácil. Contudo, é apenas uma pequeníssima parte, pois a sua maioria é por caminho de montanha, ora plano, ora inclinado, ora pedregoso ora em terra batida. Colocámos a hipótese de irmos com sapatilhas mas, logo percebemos que não é de todo o melhor calçado, apesar de possível. Além da quantidade de pedras e rochas existente que podem estar escorregadias, passamos por pequenos riachos e terra aguada que nos primeiros minutos deixariam os pés encharcados. Assim, sem duvida que a bota de montanha é o melhor calçado a utilizar. Se até começarmos tivemos dúvidas, no primeiro quilómetro foram de imediato dissipadas.





Logo no início percebemos que iríamos encontrar uma serra diferente do que habitualmente costumamos a encontrar. O amarelo está em todo o lado, são as “Maias” ou também “Cytisus” que, acompanhadas pelas cores violeta e branco, compõem a paisagem nesta altura do ano e que nos acompanharam em praticamente todo o percurso.




As paisagens começam a surgir e são arrebatadoras de tão bonitas. Qualquer fotografia não faz jus ao que os nossos olhos viram. Parámos, sim parámos “mil e uma vezes” para as contemplar, para tentar registar infrutiferamente em fotografia aquilo que os nossos olhos estavam a ver.


As subidas íngremes rapidamente davam lugar a paisagens de vários quilómetros e aí ficávamos nós, sentados numa rocha a ouvir o vento e a tentar descodificar qual a cidade que surgia ao longe. Ainda que estivesse uma ligeira neblina, no local onde foi tirada a fotografia abaixo, conseguimos ver a cidade de Aveiro, a ria e o oceano Atlântico.



Vimos muitas pessoas a praticar desporto: escalada, BTT, motocross, trail, corrida ou simplesmente caminhada como nós.


Merujal, Cabaços e Castanheira são algumas das aldeias mais características e talvez as que mais nos tenham chamado à atenção desta parte do Arouca Geopark. Em algumas aldeias sentimos que estávamos dentro das propriedades dos habitantes, ao ponto de abrirmos e fecharmos cancelas e portelos que delimitavam as próprias aldeias.


Em Castanheira almoçámos e visitámos o afloramento rochoso das “pedras parideiras”. Este é um fenómeno de granitização único em Portugal e muito raro no mundo. Consiste num “afloramento granítico que tem incrustados nódulos envolvidos por uma capa de biotite os quais, por efeito da erosão, se soltam da pedra mãe”. Daí a denominação de “parideiras”.


Em Cabaços tivemos o prazer de conversar com duas simpáticas senhoras, duas dos quatro habitantes da aldeia. Por nós e acredito que também por elas, ficávamos ali umas boas horas. Estas pequeníssimas aldeias vivem essencialmente da agricultura e da criação de gado, sobretudo de cabras e de vacas.



As famosas vacas arouquesas são criadas em liberdade pelas encostas da serra, alimentando-se à base da vegetação que vão encontrando pelo caminho. Este facto confere à sua carne, deliciosamente tenra, um inigualável sabor. É reconhecida com a denominação de origem protegida e é certificada desde Dezembro de 1998. As vacas saem de manhã, percorrem quilómetros sempre em manada e regressam sozinhas aos seus corrais ao final do dia. São geralmente mansas mas não apreciam que desconhecidos se aproximem, sobretudo às suas crias. Cruzámo-nos por muitas, algumas a menos de meio metro de distância e é de facto muito bonito vê-las em liberdade nas encostas da serra.


Já quase no fim do percurso, passámos por um dos pontos mais atrativos da serra da Freita – a Frecha da Mizarela. A Frecha da Mizarela é uma grandiosa queda de água, uma das maiores existentes na Peninsula Ibérica. Pode ser observada a partir de um miradouro bem perto da aldeia de Mizarela ou ainda a partir da aldeia de Castanheira, no lado oposto da encosta. Para conhecer um pouco mais sobre esta queda de água existe o “PR7 – Nas escarpas da Mizarela”, mas alerto já que o grau de dificuldade é elevado.

Esta viagem foi feita essencialmente no planalto da serra da Freita e é apenas um bocadinho do que podemos descobrir. Vamos com certeza repetir a experiência, fazendo os outros trilhos e descobrindo muito mais segredos desta serra que está localizada tão perto de nós. Abaixo deixo o itinerário que percorremos e que é disponibilizado pelo site “Arouca Geopark”. Deixo também um pequeno video que montámos – click aqui.
